• .

Notícias

10/09/2021 16:10

Lobo-Guará retorna ao lar após ser tratado pelo Cetas

Solto em seu habitat natural, uma área de Cerrado do município de Luís Eduardo Magalhães, o lobo-guará terá agora as condições necessárias para sua sobrevivência como abrigo, alimento e parceiras para reprodução. O procedimento foi realizado, entre os dias 02 e 06/09, pelo Centro Estadual de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), administrado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) órgão vinculado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), com o apoio do criadouro conservacionista Parque Vida Cerrado e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio).

Além da soltura, foi iniciada a readaptação de três filhotes da mesma espécie. Na lista de espécies ameaçadas de extinção, os animais foram resgatados no mês de julho e transportados para a sede do Cetas em Salvador, onde receberam atendimento clínico, tendo o adulto passado por intervenções cirúrgicas e tratamento necessário para reabilitação. “Durante o tratamento começamos a analisar as possibilidades e locais para a soltura, seguindo as orientações contidas no Plano de Ação Nacional Canídeos Silvestres. É um processo delicado e que deve ser realizado evitando ao máximo a interação do animal com humanos, para que desenvolvam os instintos selvagens e sobrevivam sem nenhum apoio externo. Por isso foi fundamental as parcerias com as equipes do Projeto Vida Cerrado e do Cenap//ICMBio, agregando suas experiências, equipamentos e estrutura, principalmente nos cuidados e preparação dos filhotes”, destacou a bióloga da Coordenação de Gestão de Fauna do Inema, Aline Barbosa.

Era mais um dia normal de trabalho no campo para senhor José Manoel da Silva, técnico em segurança do trabalho, não fosse uma surpresa inusitada, a presença de filhotes de lobo-guará no meio da lavoura de feijão. Foi o Sr. José o primeiro a encontrá-los, dando abrigo e alimentação até que fossem encaminhados ao Parque Vida Cerrado e posteriormente ao Cetas de Salvador. “Estávamos em plena colheita do feijão, quando avistamos dois animais no meio da lavoura, com todo o cuidado conseguimos tirá-los de lá e colocamos próximo a uma mata, foi quando encontramos outro filhote perdido. Esperamos para vê se a mãe ia aparecer, o que não aconteceu, então levamos eles para o Parque. Agora revendo eles aqui, saudáveis e quase prontos para voltar para sua casa que é a mata, fico emocionado e recompensado, pois sei que todo o cuidado que eu e os colegas que trabalham aqui na fazenda tivemos deu certo”.

A bióloga e coordenadora do Parque Vida Cerrado, Gabrielle Bes da Rosa, explica os desafios para a reintrodução do lobo-guará. “Já realizamos o acompanhamento clínico e nutricional para a readaptação de outros animais desta espécie, com recintos de aclimatação e uma equipe qualificada e com expertise no tratamento destas e de outras espécies de animais endêmicas do Cerrado. Nossa preocupação com o lobo adulto foi em relação à escolha da área mais propícia para soltura, neste caso o mais próximo de onde ele foi encontrado, o que facilitará no seu desenvolvimento, levando em consideração sua característica extremamente territorial. São poucos os estudos e experiências relacionadas à reintrodução dos lobos ao seu habitat, por isso estamos em uma constante atualização sobre as técnica mais apropriadas sendo essencial a parceria com os servidores do Inema e do ICMBio”.

Gabrielle ressaltou outras atividades desenvolvidas pelo Parque “Nosso projeto busca a conservação da biodiversidade no Cerrado, com incentivo a pesquisas e projetos, que vão desde o cuidado com os animais às ações de reflorestamento, como exemplo, participamos da criação da Rede de Sementes do Oeste da Bahia. Hoje realizamos a compra de mais de 40 mil sementes coletadas e produzidas por eles”.

O analista ambiental do CENAP, Rogério Cunha, explicou os procedimentos adotados para os filhotes. “Após o resgate dos filhotes encontramos uma fêmea em fase final de lactação, com o monitoramento feito com radio-colar verificamos que ela transita exatamente na área onde os filhotes foram encontrados. Diante desta constatação, trabalhamos com a hipótese dela ser a mãe, então iniciamos o procedimento de reaproximação, já tínhamos feito esta experiência outras duas vezes, com outros animais mais novos. A expectativa é que com a exposição dos filhotes, no ambiente de circulação da fêmea, ela consiga reconhecê-los e a partir deste momento poderemos fazer a soltura”.

Cunha apresentou os motivos para o aparecimento recorrente dos animais entre as plantações e próximo as áreas urbanas. “É uma espécie que normalmente circula nos fins de tardes e durante a noite, com a diminuição de seu habitat natural costuma deixar as matas para se alimentar em grandes campos abertos, tornando-se vulneráveis ao cruzar estradas e ficar em contato com os seres humanos”.

O Parque Vida Cerrado – O Parque Vida Cerrado é o primeiro e único centro de conservação e educação socioambiental do Oeste da Bahia. Está no coração do Matopiba, localizado entre os municípios de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, em uma área preservada de 20 hectares do bioma Cerrado. O Parque mantém um criadouro científico de fauna silvestre para fins de conservação com 28 animais de 9 espécies, sendo 5 delas ameaçadas de extinção. Nesse contexto foi escolhido para conduzir um projeto inovador para o manejo e conservação de uma espécie ameaçada, através de um experimento de reabilitação e soltura do lobo-guará em vida livre no Cerrado do Oeste baiano.

O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é o maior canídeo da América do Sul. Um animal adulto chega a medir 1,30 m de corpo, além de 40 centímetros de cauda, podendo atingir um metro de altura e mais de 20 quilos. Destaca-se por seus membros longos e finos e pela coloração dos seus pelos, que são laranja-avermelhados em grande parte do seu corpo. O lobo-guará apresenta hábito de vida solitário, sendo encontrado formando casais apenas na época reprodutiva e durante o cuidado parental.
Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.